A Bioenergética no Desenvolvimento de Atletas |
A BIOENERGÉTICA NO DESENVOLVIMENTO DE ATLETAS
Hugo César Gaete Verdugo
Resumo
Neste trabalho queremos discernir sobre as dificuldades que apresentam desportistas adolescentes cujas exigências, tanto dos progenitores, quanto do meio esportivo, produzem respostas nos atletas que nem satisfazem a si mesmos e nem aos meios externos.
Hoje e cada vez mais são conhecidos na mídia jovens fenômenos esportivos que superaram grandes dificuldades, transformando-se em celebridades, mas que deixaram para trás etapas importantes do seu desenvolvimento como indivíduos e que uma vez adultos se comportam ainda como adolescentes. E são criticados justamente por não ter comportamentos adequados à idade cronológica.
Palavras-chave: atletas, desenvolvimento, amadurecimento, resultado.
No contato com minha atividade profissional tive a oportunidade de ajudar um atleta identificado como promissor. Técnicos e responsáveis legais solicitavam dele uma postura mais agressiva em campo, mas apesar dele ter habilidades com a bola desde os oito anos apresentou nos últimos dois anos comportamento tímido, pouco lutador ou evitando o confronto, atitudes anormais dentro do futebol, produzindo constrangimento a si mesmo a seus pais, que tanto investiram nele e abalando um prestigio ganho dentre seus amigos de infância. Outro exemplo é o caso de um adolescente despertando como atleta que, tendo um pai exigente que quer ver seu filho dentre os destaques, exige dele também uma postura agressiva e de compromisso com resultados, talvez sobre dimensionados para a capacidade de alguém que está saindo da fase pré-adolescente.
Nestes dois exemplos fica claro do pouco importante que é o desejo do atleta, passando a cumprir os desejos de um progenitor que está querendo “o melhor para meu filho”. Dessa forma estes atletas passaram a usufruir de uma condição de privilegiados enquanto a serem vistos, notados pela sua família, sacrificando outras brincadeiras e experiências próprias da idade sem um nível de exigência que os faz se perder de si mesmos para atender os desejos de êxito, fama, sucesso de um pai ou/e de uma entidade.
A reportagem da revista Veja de 04/02/2009, que na capa mostra um dos maiores talentos do futebol, hoje de 25 anos, com o dedo na boca, como um garotinho, mas capaz de produzir uma das maiores fortunas esportiva, traz o questionamento sobre o que aconteceu com estes rapazes, que se tornaram astros ou celebridades em muitos aspectos, mas sem uma estrutura psicológica que os faça ser adequados em outros ambientes, principalmente onde a necessidade de prazer os faz perder a relação com regras de convivência onde o outro passa também a ter um significado. Tomando como exemplo este caso fica claro o desrespeito, em primeiro lugar a si mesmo, quando não se dimensiona a conseqüência que terá um comportamento de não respeitar a outras pessoas.
A psicóloga Suzy Fleury, psicóloga que já trabalhou na seleção brasileira de futebol, declara na reportagem, que:
O problema origina-se, em geral, numa infância pobre, tanto em termos materiais como de valores (...) e os que se destacam logo deixam os estudos de lado. A família e a educação são fundamentais para formar a personalidade e a visão de mundo de qualquer pessoa. (...) O dinheiro e a fama criam armadilhas muito sedutoras para quem vem de uma condição precária em termos morais, intelectuais e emocionais na infância.
São muitos os exemplos que a mídia nos traz do mundo desportivo. Por exemplo: Michael Phelds, o maior nadador de todos os tempos foi pego com maconha, que mesmo não tendo uma infância desprovida e sim muito bem estruturada educacional e socialmente, apresenta comportamento desrespeitoso para com ele mesmo, para sua carreira e seu desempenho, deixando a desejar como um exemplo para tantos adolescentes. Muitos outros são os atletas que não conseguem amadurecer, pois que não viveram suas infâncias por se dedicar aos esportes e apresentar resultados como adultos e hoje, adultos, com dinheiro e fama, voltam a viver as experiências que faltaram na infância e adolescência.
Fazendo uma retrospectiva histórica destes jovens astros poderíamos dizer que foram muito obedientes aos desejos de seus pais e às ordens de seus treinadores sendo valorizados também por isto, obtendo ganhos materiais e psicológicos impensados.
O que estes jovens deixaram para trás? Numa resposta simples, uma infância sem exigências demasiadas, lúdica, pelo prazer de brincar, até irresponsavelmente trocando-a principalmente por resultados econômicos indispensáveis para os adultos responsáveis que pressionaram e/ou os chantagearam. Hoje eles têm um poder que antes não tinham e por isto se “autorizam” a fazer o que dá prazer, apesar das conseqüências. Assim voltam a ser os meninos que antes não puderam ser.
Olhando para estas dificuldades queremos antecipar resultados diferentes levando em consideração os estudos da bioenergética desde a ótica da caractereologia proposta por Alexander Lowen para um atleta específico. Trata-se de um rapaz de 12 anos, com ótimas aptidões para um determinado esporte, que apresenta perda súbita de energia quando exigido por resultados que não são por ele escolhidos. Devemos esclarecer que é natural que no desenvolvimento esportivo deste atleta o resultado seja condição para poder galgar um status que lhe permita ter abertura para compromissos de cada vez mais responsabilidade. Mas o que quer fazer um pré-adolescente? Ele quer jogar por brincadeira, sem a carga ou a responsabilidade que significa um resultado final que lhe permita uma projeção no tempo para obter posições dentro de um ranking. Identificamos neste atleta traços de uma caractereologia que de acordo com Lowen (1977, p 163), é o caráter oral, principalmente por apresentar uma sub-carga de energia. E descreve:
Cansa-se rapidamente, quando engajado numa atividade contínua. (...) A maioria destes indivíduos sentem que lhe faltam forças (...) Este pressuposto de uma falta de energia é apoiado pelo fato que a sua estrutura está frequentemente associada à baixa pressão arterial e a um metabolismo basal-normal baixo.
Outras características deste caráter: peito murcho, esterno para dentro, fraqueza nos braços e mãos, controle de movimentos pobre e coordenação motora inadequada, e como diz Lowen, (1977, p163) “as pernas cansam-se rapidamente em posição de tensão”.
Além das características acima, este atleta apresenta também dificuldade de aceitar chamadas de atenção ou críticas, que o conduziriam a notáveis melhoras, mas que seu comportamento reativo não permite. Obtém finalmente resultados medíocres ou negativos, pondo em evidência sua autodesvalorização. Assim, cria um círculo vicioso entre o que ele pensa de si mesmo e as orientações para melhorar que ele escuta de quem quer que seja, e entende como crítica.
Lowen coloca que o conflito de uma pessoa com este traço de caráter está entre a necessidade e a independência. A necessidade dele é o brincar, mas o que o meio oferece a este atleta são treinos, orientações de ordem motivacional e técnica para se tornar eficiente e assim ganhar cada vez mais independência. A oralidade o conduz a considerar que as necessidades que ele tem nesta etapa do desenvolvimento são outras e rejeita as orientações que o conduziriam a uma independência fixando-se na necessidade não preenchida que o mantém dependente. É verdade que temos um pré-adolescente e não uma pessoa amadurecida, e que na visão do conflito temos um indicativo da solução quando vemos claramente que o conflito está entre necessidade e independência e como funciona para ele este conflito.
Sabemos que, no momento do seu desenvolvimento este pré-adolescente é guiado fortemente pelas orientações e desejos do pai, que o impulsionam a preencher seu tempo com atividades extras escolares que lhe permitam um futuro melhor, apesar de este pai não enxergar a perda no desenvolvimento natural do filho. O nível de estresse que causa tanto no pai quanto no garoto, cria conflitos permanentes entre eles, chamando a intervenção da mãe, que naturalmente protege o filho como antes o fazia quando ele era um bebê. Sabemos que neste processo, se repete o processo original, ou seja, o conflito do pai é alcançar espaço entre a mãe e o filho e a mãe ao não dar a segurança emocional ao filho, antes por abandono ao sair para trabalhar desde bebê e depois compensando a sua falta por superproteção, favorecendo que o menino fique sem autoconfiança e um dependente emocional. Emocionalmente este filho apresenta passividade (obediência contida), depressividade, carência (necessidade de valorização), dependência e egocentrismo.
A gênese das suas características está na fase de amamentação e se apresenta pelo medo de perder o objeto amado, o que o conduz a sentir uma permanente necessidade de segurança. Segundo Volpi & Volpi (2003, p 45) está na fase de incorporação, no primeiro ano de vida, e no seu funcionamento:
Tem dificuldade em assumir uma posição em qualquer questão e em enfrentar oposição. Revolta-se contra a necessidade de trabalhar. Deseja ser sustentado pelos outros, ou num extremo oposto é exageradamente independente. Há necessidade de aprovação e apoio. O nível de agressividade é baixo, falta força de vontade. Tem medo de obter o que deseja e se decepcionar.
Na modalidade esportiva que este atleta desenvolve é crucial ter o senso de definição, ou seja, fazer escolhas que definam o jogo permanentemente, quer dizer, que durante todo o desenvolvimento da prática ele necessita tomar decisões sobre a melhor opção para ganhar. Ao estar sozinho dentro da quadra disputando, ola permanentemente para seu treinador ou apoio psicológico, esperando dicas ou algum tipo de energia que lhe dê segurança para ter resposta adequada, perdendo a concentração e, portanto colocando-se numa posição inadequada para a disputa. Esta permanente pressão por resultados, sem ter de onde tirar apoio, o conduz a perda de energia. Ele sente-se sozinho e sem apoio suficiente para lutar e ganhar o jogo, mas se submete a todo este processo para ser valorizado e finalmente aprovado. No entanto, não é assim que acontece na prática, pois ao estar sozinho e não obter energia externa fica com ele a decisão do que fazer para ganhar, aqui é onde se apresenta a queda de energia. A sua dependência o faz perder concentração, não definindo favoravelmente o ponto para si e advindo as críticas, portanto a desvalorização, perpetuando o círculo vicioso.
Ante toda esta dificuldade, ajudar este jovem atleta se torna um desafio, com a necessidade de atuar em níveis diferentes. Em nível externo com treinador e os pais, e no meio interno, com o atleta em si. Neste trabalho externo se torna indispensável trazer na consciência da família e treinadores o conflito que o atleta vive que é de necessidade versus independência. Trazendo as palavras de Volpi e Volpi (2003, p 45) “o trauma relaciona-se ao direito de receber suporte. “Fui abandonado e não posso sobreviver sozinho...” é a crença do oral, que é a criança abandonada”. A necessidade então está em obter energia por si mesmo e a tarefa terapêutica, segundo Volpi e Volpi (2003, p 47) “A tarefa é aceitar a realidade, apesar da raiva e do medo de estar só; é necessário sustentar-se nas próprias pernas, aprender a nutrir a si próprio e também a compreender e a suprir as necessidades dos outros”.
Assim, podemos desenvolver atividades, sejam de orientações ou exercícios bioenergéticos específicos para conduzi-lo a uma integração maior, devolvendo o nível de energia que lhe permita se estruturar corporalmente, preenchendo seu sistema muscular e permitindo sustentar-se por si mesmo. É indispensável que ele possa ganhar consciência da necessidade de ganhar seu self, onde por desejo e vontade própria ele se preencha com motivos que o conduzam a obter prazer nesta atividade esportiva especificamente ou em qualquer outra que ele possa vir a escolher, porque hoje a dificuldade está na escolha que o pai faz para ele, parecendo que, não é isto o que ele gostaria de fazer. Observando a tradição familiar e as aptidões próprias do atleta, ele teria grandes condições e oportunidades de alcançar êxito, faltando-lhe só, entender e produzir se conectando ao seu desejo interno, que pretendemos despertar ao trazer esta consciência e exercícios específicos.
Referências
LOWEN, A. O corpo em Terapia. A abordagem bioenergética. São Paulo, Summus Editorial, 1977.
OYAMA, T.; PORTELA F. – Por que eles não crescem. In: Revista Veja – Edição 2098, Editora Abril, São Paulo, ano 42, p 78-85, 2009.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich – A análise bioenergética. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.