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Do ter ao ser: Reflexões

 

Somatopsicopatologia nos conduz às dinâmicas do Ter estruturadas nos períodos perinatais, neonatais, assim como as dinâmicas do Ser, definidos nos períodos pós-natais. Descreve as patologias e conceitos somáticos contidos nestas manifestações ampliando o pensamento de Wilhelm Reich em que mente e corpo formam uma unidade.
Estabelece claramente o momento que, no desenvolvimento humano, a disfunção neurovegetitiva surge dependendo de freqüência e intensidade, assim como de deficiência psicológica.
Posteriormente ã condensação como leitura resumida dos conceitos originais fazemos uma reflexão do entendimento alcançado sobre estes conceitos acrescentando aprendizagens outros que colocados em prática na vida cotidiana e na prática terapêutica tem enriquecido o diagnóstico e a fundamentação psicoterapêutica.

Ao ler Somatopsicologia de Frederico Navarro, Eu e Não-eu (o outro) pág 29, nos faz reflexionar sobre nosso desenvolvimento como seres humanos colocando-nos de frente para as dificuldades do crescer harmonicamente ou genitalmente segundo este modelo. Condensaremos este capítulo para depois tecer reflexões sobre o compreendido.

De acordo com Navarro nossa capacidade de reagir, se estabelece por volta do quarto ao quinto mês de vida fetal, quando estímulos auditivos e luminosos nos trazem as primeiras consciências (inconscientes) registradas celularmente produzindo ‘atividade motora reativa’, ‘sendo capaz de ouvir (não de escutar), de ver (não de olhar)’.

Ao nascer a predominância auditiva cede lugar à predominância ótica realizando assim um mamífero ótico (um terço das fibras nervosas são óticas).

O vulto da mãe na amamentação torna-se indispensável no seu campo visual para que este indivíduo (eu) consiga acomodação e convergência descobrindo um eu e um outro (não eu).

O potencial emotivo se desenvolve criando uma identidade e uma individualidade. O isolamento após o nascimento dá origem ao astigmatismo. Olhar (o outro) nos traz a referencia do superego formando-se nas mensagens provenientes do outro.

O desmame nos traz a evolução que quando ‘deficitário psicologicamente’ frequentemente determinará o surgimento da hipermetropia e/ou miopia.

A presbiopia (vista cansada) relacionada ao outro indiretamente se forma psicologicamente por vivências emotivas perturbadas pela ansiedade perante a dimensão espaço-tempo (separação no período neonatal ou a motilidade ao período pós-natal ou mobilidade).

A integração do espaço-tempo necessária para orientação é adquirida na postura ereta que amadurece a função visual na rotação dos olhos realizada em um eu corpo ou núcleo biológico energético determinando a aquisição de: 1. Visão tridimensional, panorâmica e estereoscópica. 2. Historicidade, um antes e um depois. 3. Esquema corporal. 4. Prospectiva. 5. Previsão. 6. Antecipação. 7. Nexos causuais. 8. Campo da consciência. 9. Protagonizar a própria vida. 10. Possuir um eu expressão do si.

Os estágios visuais perinatais e neonatais são dinâmicas do Ter; na fase pós-natal, a visão é função da percepção ligada a dinâmica do ser.

 

 

Reflexões sobre a compreensão desta leitura

 

O que nossas células aprendem como reação neste período inconsciente?

Que informação é guardada ou armazenada como experiência reativa?

A nossa referência supostamente adequada ou não é a da genitora, portanto a experiência dela será nossa experiência (inconsciente) gravada celularmente que posteriormente se manifestará cada vez que ao escutar (agora ouvindo) produzirá um quantum de energia (hiperorgonótica, desorgonótica, hipoorgonótica) disponível como atitude, comportamento ou resposta, primeiramente emocional, por ser inconsciente o registro original, produzindo energia mental buscando registros conscientes como lembranças desencadeando uma ação objetiva, específica para cada evento na vida. O ver agora olhando também terá o mesmo processo, porém mais complexo. Ao nascer a predominância ótica ocupará um terço das fibras nervosas. Algumas perguntas nos ajudaram a entender processos psicológicos desde este enfoque (a capacidade de reagir).

O que vivia a genitora no quarto, quinto mês de gestação?

Como reagia diante de estímulos físicos, emocionais, mentais e espirituais?

O que significava a gravidez para a genitora?

As respostas a estas perguntas nos ajudarão a dimensionar o nível de energia disponível para reagir.

 

Refletiremos agora sobre:

Acomodação: Lugar seguro e cômodo, adaptação, disposição, arrumação.

Convergência: Afluência para o mesmo ponto, foco.

A progenitora é a pessoa que irá amamentar, ‘produzirá’ acomodação para o Eu, acomodará externamente ou não com certa freqüência e intensidade que produzirá respostas que com o tempo se transformarão em ações relativas a estas definições. Em síntese, a carência psicológica, mostrará a falta de adaptação. Também produzirá convergência ou foco que, levada a deficiência psicológica conduzirá o Eu a falta de referência, concentração, atenção, dispersão, instabilidade, falta de visão e ou astigmatismo no nível físico afetando não somente o aparelho que vê, os olhos, assim como os conteúdos mentais definidos por pensamentos e idéias, assim também como sentimentos e sensações emocionais relativas a estas definições.

Assim este Eu descobrira um outro Eu, um não Eu que pela qualidade do relacionamento armazenarão experiências que definirão o valor que o outro dá, que  mostra para este Eu, através de experiências que num processo evolutivo estruturam o superego ou a auto-estima.

 

Refletiremos sobre Desmame:

Esta é uma nova adaptação e foco para o Eu, o outro Eu ou não Eu. Todos os aprendizados anteriores são testados e re-experimentados em todos os níveis de consciência. Novamente freqüência e intensidade, assim como a deficiência psicológica determinarão o grau de miopia (falta de perspicácia) e ou o grau de hipermetropia (não enxergar perto).

Estas duas deficiências fisiológicas conduzem-no a supor que psicologicamente as respostas serão deficitárias como conseqüências relativas a cada uma delas. Assim, a miopia nos conduzirá, por exemplo, a abandonar projetos e sonhos, causando-nos frustração. A hipermetropia nos deixará talvez num passado distante ou num futuro inexistente, sem enxergar o presente.

 

Refletiremos sobre a Presbiopia:

O resultado fisiológico ou físico chamado presbiopia teria se formado por ansiedade pelo outro Eu ou não Eu, portanto, indiretamente ou por ausência, espera. A espera pelo outro Eu produziu vivências emocionais perturbadoras na relação entre o não nascido e o pós-nascido. Assim este Eu não nascido que experimenta o Ter, espera, e o pós-nascido começa a experimentar o ser, que após quarenta anos, cansado de ‘esperar Ter’ começa a sofrer perturbações no ver, então o corpo nos deixa finalmente cegos para não ver mais o que falta Ter. Assim, apesar de ficarmos limitados, equilibramos nosso Ser e Ter finalmente.

 

Refletiremos sobre a integração espaço-tempo:

Com o amadurecimento da função visual definido pela rotação dos olhos trazemos a integração do espaço-tempo ou a integração do aqui e agora que se exprime no presente denotando a separação entre passado e futuro na linha do tempo.

Pode-se dizer que esta integração se dá no tempo presente ou aqui e agora, ou espaço-tempo. É conhecido o conceito que a única realidade é o presente e que passado e futuro são ilusão ou projeções; só no presente podemos agir alterando a realidade.

Integrar espaço-tempo é compreendido como agir na realidade, estar no presente é a ação fundamental para sair das projeções que como passado e futuro nos iludem.

Navarro coloca dez fatores adicionais para compreender e dimensionar melhor esta integração refletiremos sobre algumas delas:

A visão tridimensional onde a visão panorâmica ou a visão de um campo visual maior, mais abrangente assim como a visão estereoscópica ou visão em profundidade nos sem dúvida a visão completa, que terá necessária e grande participação dentro destes parâmetros. O contrário será a visão superficial ou incompleta. Cabe-nos perguntar qual é o nosso grau de visão da realidade? O que nós observamos tem profundidade e perspectiva? Na linha do tempo (passado-presente-futuro), onde permanecemos mais tempo? E o outro Eu, onde permanece?

Historicidade nos reporta a um antes como futuro e a um depois como passado, como qualidades do que é histórico ou verdadeiro, denotando mais a característica do registro ou ‘documentação’ do acontecido como passado. Assim neste conceito como realidade nos cabe perguntar: sobre qual realidade histórica?

A física quântica nos explica que a realidade objetiva é aquela observada, que toma dimensões e se torna história. As outras são possibilidades que continuam existindo num espaço-tempo contínuo.

Prospectiva, previsão e antecipação são três conceitos temporais que denotam características do futuro. São três conceitos que definem um espaço-tempo não existente mas programável, na medida que nossa dimensão psíquica ou emocional-mental nos permitam sua existência e dediquem energia para obter as reações necessárias aos nossos projetos, sonhos e projeções. O equilíbrio destes conceitos se encontrará quando o presente alcance as projeções.

Quando o presente está no futuro em maior ou menor grau devemos cuidar, pois podemos estar numa ilusão.

Sobre nexos causais, campo da consciência, protagonizar a própria vida e possuir um Eu expressão do si, até este momento não temos mais reflexões mas imaginamos sim, quantas dificuldade, ou melhor quantas facilidades obteríamos para nossa energia fluir na genitalidade.

 

Refletiremos sobre o Ter e o Ser:

Neste texto Navarro descreve o Eu e o não Eu ou outro definindo a formação das estruturas psicopatológicas. Conclui este capítulo definindo as dinâmicas do Ter e Ser.

Acrescentamos também neste período neonatal a aquisição das ‘dinâmicas do Ter’. Neste período da gestação estamos construindo estruturas que nos sustentarão. Vemos que como foram construídas psicologicamente estas estruturas nos permitirão Ter em maior ou menor grau.

Ter uma estrutura corpórea física e todas as relações com a matéria, principalmente as de sustentação básica, comer, vestir e morar.

Ter uma estrutura mental que armazena e grava aprendizagens e experiências para utilizar como conhecimento disponível e racionalmente reagir ao que vemos.

Ter uma estrutura emocional que reage ao que a mente distingue produzindo sensações e sentimentos que disponibilizam energia como pensamentos-comparações e respostas-ações.

Ter uma consciência espiritual que em termos de valores aprendidos-experimentados os realizará sentindo-os, raciocinando sobre eles e aplicando-os nas suas melhores ações.

Após o nascimento este Eu começará o processo de adquirir as ‘dinâmicas do ser’ ou um modo de existir, de ter um atributo, de causar, de produzir.

Parece-me que nossa cultura mercantilista se fixou no Ter se aprofundando nesta experiência para adquirir. Fico me perguntando: Será esta nossa capacidade de reagir ante nossa carência de ter? De qualquer modo se a carência é sentida não teremos raciocínio para parar de Ter e será necessário adquirir este Ter para posteriormente Ser.

Talvez o vazio inconsciente produto de experiências neonatais incompletas tenham nos conduzido a este momento civilizatório consumista entrópico. Convivemos permanentemente com a insatisfação, com a incompletude, estamos sempre olhando para o outro como referência, sem considerar quanto incompleto ele está, mas este outro também faz o mesmo, criando um contínuo insatisfeito a ser completado no Ter para depois Ser.

 

 

Referências:

ARGUELLES, J. O fator Maia. São Paulo. Cultrix. 1991

CAPRA, FRITJOF. A Teia da Vida. São Paulo. Cultrix. 1993

NAVARRO, F.  Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995

NAVARRO, F.  A Somatopsicodinâmica. São Paulo: Summus, 1995

NAVARRO, F. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996

OUSPENSKY, P.D. Tertium Organum. Buenos Aires. Kier AS. 1982

STEIN, M. L. O fator T. São Paulo: Summus. 1976

VOLPI, J.H.; VOLPI, S.M. Reich da Psicanálise à Análise do Caráter, 2003

 


 

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