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Menopausa e Sexualidade: efeitos colaterais da cultura

 

A menopausa é uma fase de transição no ciclo de vida da mulher e por longo tempo na história foi associada a sofrimento, perdas, depressão e sintomas desconfortáveis. As transformações que acontecem no organismo da mulher são acompanhadas ou atropeladas por aspectos sociais e culturais e influenciam seu psicológico, criando visões positivas ou negativas deste momento de vida.
As pressões sobre a mulher são tantas e ainda mais nesta fase, quando mudanças significativas acontecem e interferem não só em aspectos individuais, mas nos seus relacionamentos mais importantes e alteram seu status dentro da sociedade.
Pretende-se, neste artigo, analisar as influências culturais na sexualidade feminina na menopausa, focando nos papéis sexuais da mulher dentro da visão Bioenergética de Alexander Lowen.

Escrever sobre menopausa requer analisar com mais profundidade uma fase importante da vida, principalmente por estar justamente vivenciando essa etapa e experimentando tudo que descrevem os especialistas. É uma fase de mudanças, descobertas e surpresas, e a forma como nos posicionamos frente a estas mudanças tem a ver com nossa maneira de ser e estar no mundo desde que nos descobrimos mulheres. Quisera ter tido expectativas positivas sobre esta época de minha vida, mas de repente começaram a acontecer alterações no meu corpo e sintomas estranhos. O diagnóstico veio junto com o momento de choque “mas já?”. Sabia que um dia isso aconteceria, mas pensava que ainda estava muito longe. Eu como tantas mulheres modernas, me descobri precocemente na menopausa aos 43 anos. Descobri que, além da explicação genética, a influência do estilo de vida e do estresse adianta o ciclo. E, ao lidar com o que acontecia comigo, também aprendi a compreender melhor as mulheres que atendia no consultório. Também por isso estou escrevendo sobre este tema, uma experiência vivida, refletida, estudada, pensada. Mas, sobretudo sentida e amadurecida aos poucos.

principalmente por estar justamente passando por ela, vivenciando tudo que descrevem os m vidaeu ideal d epoderito, magro, bemA menopausa é uma transformação na vida da mulher, não só física, mas também emocional, mental, sexual, relacional. Dividida toda sua vida entre tantos papéis e exigências, tanto internas como externas, a mulher entra numa angústia maior nesta fase da vida, pois além dos sintomas próprios desta etapa, também teme sair do padrão de beleza convencional, o desejo do homem que está ao seu lado, envelhecer, e lidar com outras questões também complexas como a aposentadoria, a doença ou morte dos pais e a saída dos filhos do lar. E todos estes aspectos remetem a perdas, considerando que em todo o desenvolvimento da mulher, historicamente, ela sofre muitas pressões no desempenho de papéis que nem sempre trazem prazer, mas sim, muitas obrigações.

A medicina e a psicologia tentam explicar e tratar os sintomas desta fase, cada uma com recursos próprios e olhares distintos. E as mulheres ficam atordoadas em descobrir tantas novidades, desconfortos, pressão, necessidades, emoções desencontradas, decisões como mudar alimentação, tomar hormônios, antidepressivos, soníferos, fazer exercícios, enquanto tentam manter suas vidas funcionando dentro do cotidiano e parecer belas, tranqüilas e dar conta de sua agenda profissional e/ou do lar, de esposas e mães. E, além disso manter-se jovem, usando para isso todos os recursos da estética e medicina modernas.

A mulher passa a se preocupar consigo mesma, sua saúde, seu relacionamento, lidando com medos e inseguranças. Os motivos que fazem as mulheres se embelezarem não se restringe a agradar os homens, mas também em querer manter a juventude a todo custo devido ao valor que socialmente é associado a ela. O mito da juventude eterna, ter 50 anos, mas aparentar 30 é muito estimulado pelos meios de comunicação, a moda, a estética, os homens, as próprias mulheres. Uma verdadeira ditadura que não considera a beleza própria de cada idade.

Para analisar as mudanças que ocorrem em torno dos 50 anos não é suficiente pensar no contexto de vida presente, mas requer observar como foi a vida da mulher em suas outras fases: criança descobrindo o que é ser mulher; adolescente – descobrindo  a sexualidade; jovem adulta – aprendendo a lidar com sua sexualidade e desenvolvendo outros papéis; aos 30 desabrochando como mulher, tornando-se independente e tomando decisões; aos 40 assumindo seus desejos com segurança; aos 50 perdendo medos e vivendo sua fase mais madura. Dali em diante seria aproveitar suas conquistas e liberdade. Porém sabemos que não é exatamente assim o desenvolvimento da mulher. O que de fato acontece é que desde menina vivencia repressão, expectativas irreais, cobranças, exigências, medos, rigidez, o que resulta mais tarde em depressão e ansiedade.

A cultura exige desde sempre modelos perfeitos e escraviza a todos. Por exemplo, pensar sobre o narcisismo crescente na sociedade, com a imagem de que todo mundo deve ser jovem, bonito, magro, bem sucedido, feliz. O protótipo da perfeição. Os homens devem ser verdadeiros heróis, ao mesmo tempo agressivos e carinhosos. As mulheres então, profissionais exemplares, donas de casa impecáveis, esposas perfeitas, verdadeiras deusas do sexo, e mães dedicadas, não necessariamente nesta ordem. Depressão? Sintomas de menopausa? Isso seria colocar em questão que as mulheres amadurecem e envelhecem que não terão 25 anos indefinidamente. Isso seria abandonar as ilusões de que existem mulheres perfeitas que não envelhecem, ou na melhor das hipóteses, que passam pelos seus ciclos sem reclamar de nada. Pensando melhor, sem sentir nada. A cultura narcisista da perfeição e da liberdade sem limites passa longe dos sentimentos porque estes provocam sensações estranhas, pensamentos contraditórios, vontades inadmissíveis.

Dentro deste espectro tão amplo que é o climatério vamos enfocar especificamente as questões relacionadas à vivência da sexualidade nesta fase, analisando a interferência da cultura, os aspectos clínicos, sociais e os psicológicos dentro da abordagem bioenergética.

Alexander Lowen, psiquiatra e criador da abordagem bioenergética, fez uma amplo estudo da sexualidade, particularizando os papéis sexuais dos homens e das mulheres, tomando como base de seus estudos e descobertas pressupostos das teorias de Wilhein Reich, que desenvolveu conceitos importantes a partir da psicanálise, descortinando o universo do corpo dentro da psicologia. Este universo ainda é desconhecido por grande parte dos profissionais de saúde e mais ainda da população em geral. Tomando como exemplo as questões da menopausa, é um infortúnio para muitas mulheres perceberem que fenômenos estranhos começam tomar conta de seu corpo de maneira incontrolável. Naturalmente toda mulher viu sua mãe e suas avós reclamando de calorões e suores. Mas isso era numa geração em que as mulheres de 50 anos já eram “velhas”, e pareciam completamente destituídas de vaidade, como se a ausência da fertilidade, por si, as tornassem senhoras que só tricotavam e faziam doces para os netos. Portanto, falar de sexualidade na menopausa seria até um sacrilégio. Aliás, sexualidade antes da menopausa já nem era permitido, a não ser para tornar a mulher, mãe, sua sublime e sacrificada missão.

O fim da fertilidade poderia ser uma libertação para a mulher viver sua sexualidade sem o medo de uma gravidez indesejada e sem ter que usar métodos contraceptivos, que geralmente são agressivos para seu organismo. Porém, como usar uma liberdade não permitida? Será que por isso acontece a inibição do desejo? Será este um fato real? Ou ele acontece porque a mulher não aprende a ser dona de sua sexualidade?

Temos que observar alguns estudos para falar com mais embasamento sobre um tema tão delicado, embora as pesquisas ainda sejam insuficientes para demonstrar que a menopausa é a grande responsável pelos sintomas que acometem as mulheres. Deeks (2002) apud Pimenta, Leal e Branco, reflete que:

 

Ainda que existam numerosos estudos sobre o impacto das alterações fisiológicas na vida sexual, pouco se sabe ainda sobre a influência de fatores psicológicos na alteração da experiência sexual das mulheres em período de menopausa.

 

Os autores Pimenta, Leal e Branco (2006, p 459) propõem uma reflexão: “O impacto da experiência da menopausa na vida da mulher... ou o impacto da vida da mulher na experiência da menopausa?”.

Mas o que é menopausa ou climatério? Os dois termos originam-se do grego: men (mês), pausis (cessação); climatério (período crítico). A menopausa define-se por um ano ininterrupto de ausência de menstruação, e o climatério é todo o período de mudanças que passa a mulher, compreendido entre os 45 e 55 anos. Segundo Pitelli, médico ginecologista (1997, p1) “Corresponde, biologicamente, à falência progressiva dos ovários como gônadas (produtores de óvulos) e como glândulas (enquanto produtores de estrogênio-progesterona)”.

Ainda, de acordo com Pitelli, com a diminuição do estrogênio surgem sintomas como: “ondas de calor”, acompanhado de suores e calafrios, irritabilidade, insônia, depressão, ansiedade, falta de concentração, dificuldade de memorização, diminuição do interesse sexual.

Embora existam explicações fisiológicas para estes sintomas eles não justificam porque este período é tão sofrido para algumas mulheres, especialmente as ocidentais e, Pitelli demonstra isso citando pesquisas em duas culturas distintas. Na Índia, as mulheres, da casta Rajput esperam a menopausa com atitude positiva, pois conquistam maior liberdade e status. E as descendentes das índias Maias, no México, também experimentam um aumento de status na tribo, sendo tratadas com maior consideração. Nestas duas culturas as mulheres praticamente não apresentam os sintomas típicos que acometem as mulheres ocidentais, embora os efeitos fisiológicos sejam os mesmos. Estes fatos vêm a corroborar a idéia que as influências sociais e culturais são determinantes para esse período de transição pelo qual passam as mulheres.

Voltando a Alexander Lowen (1965, p 246), ele afirma que “os problemas sexuais das mulheres têm alguma relação com o duplo padrão de moralidade ao qual foram submetidas ao longo de incontáveis gerações”. Explica que este “padrão tem suas origens no desenvolvimento da cultura ocidental, dominada pelo ego masculino e por seu ideal de poder”. (1965, p 248).

Assim, não podemos falar apenas da mulher e sua sexualidade e da mulher e sua menopausa. Uma vez que todos estes aspectos estão interligados, não é possível pensar numa sexualidade unicamente feminina, ou numa menopausa meramente individual. Embora existam componentes fisiológicos importantes, o relacionamento afetivo e o papel de ambos os sexos afetam diretamente a percepção e o significado atribuído à sexualidade e à menopausa.

Quando Lowen fala de amor, de prazer, de orgasmo, de respiração, de vida, ele fala que homens e mulheres saudáveis precisam viver estas experiências sob risco congelar-se e viver uma vida pouco criativa ou de adoecer física, mental, emocional e espiritualmente.

Sabemos que a vida da mulher é muito mais ampla, e que a sexualidade é uma parte tão importante e realizadora quanto o desempenho de outros papéis em sua vida, porém neste trabalho vamos focar na questão dos papéis sexuais estudados por Lowen no livro Amor e Orgasmo, onde estabelece que:

 

As mulheres têm quatro papéis principais em relação ao sexo masculino: objeto sexual, irmã, ideal romântico, mãe. [...] Esses quatro papéis correspondem aos quatro estágios de sua vida pessoal: filha, irmã, amada (ideal romântico) e mãe. O desenvolvimento psicossexual da mulher é um processo de crescimento que incorpora cada um dos estágios precedentes a uma personalidade que progressivamente amadurece.(1965, p 255, 256).

 

 

            Para Lowen a personalidade e a sexualidade estão intimamente relacionadas e uma afeta a outra diretamente.

 

A pessoa sexual é uma pessoa amorosa e alegre. Sua sexualidade abastece-a com a principal fonte de prazer e satisfação da vida. Também provê uma orientação positiva para com os outros e para com o mundo. A pessoa sexualmente frustrada é invariavelmente uma pessoa amarga. Mas a personalidade controla e modifica a sexualidade. [...] Se a personalidade for cheia de vida e energia, a sexualidade da pessoa exibirá as mesmas qualidades. (1965, p 65).

 

Portanto, o amadurecimento da personalidade favorece o desabrochar da sexualidade e consequentemente uma atitude positiva da mulher em relação a si mesma em todas as fases da vida, inclusive a menopausa. Pelo contrário, a imaturidade nos estágios do desenvolvimento mantém a mulher funcionando como menina e rigidamente fixada em comportamentos da infância. Como a relação se faz a dois encontrará alguém também fixado em alguma etapa infantil e assim se produz um relacionamento neurótico.  O contrário também é verdadeiro, pois segundo Lowen (1965, p 256)

 

Num casamento saudável o marido não considera a esposa como objeto sexual, irmã, ideal romântico ou mãe. Ele responde biologicamente a ela e pensa a seu respeito como uma pessoa singular e integrada. Entretanto, se seu padrão de comportamento for limitado a um papel específico e for a ele estruturalmente correspondente, ele a perceberá conscientemente segundo este papel.

 

Para Lowen cada um dos papéis sexuais possui comportamentos específicos e distintos e as mulheres os adotam dependendo das experiências que viveram com seus pais da infância até a adolescência. Embora a mulher tente viver todos os papéis, (1965, p 256) “está prejudicada pela interrupção de seu desenvolvimento psicossexual num nível incompleto”.

 

O papel de filha:

Quando a mulher fica fixada no papel de filha, como a “princesinha do papai”, seu comportamento pseudo-adulto é como objeto sexual. A mulher pode assumir a prostituição ou agir como “prostituta psicológica” (p 256) na relação com os homens. Em ambos os casos aposta na sua aparência física, seduzindo os homens desde cedo. Sua auto-estima diminui porque se sente rejeitada “como objeto de amor” (p 257) e aceita “como objeto sexual” (p 257). Seus relacionamentos são superficiais e até mesmo promíscuos. Sente repugnância pelo sexo. Pode casar ou não.

Podemos pensar que a mulher com este perfil recebe a chegada menopausa com desgosto, pois as mudanças corporais e psicológicas diminuem os atrativos sexuais com os quais seduzia os homens e a frustração por não estabelecer uma relação profunda ou duradoura podem evoluir facilmente para a depressão. Como substituiu o amor pelo sexo sem vinculá-los sente-se profundamente sozinha e vazia. Neste caso os desconfortos podem ser sentidos com mais intensidade.

 

O papel de irmã:

Neste papel a menina pauta seu relacionamento com os meninos pela igualdade e fraternidade, aceitando e compreendendo as diferenças entre os sexos. No relacionamento, torna-se companheira, porém competidora. Casa-se mais pela companhia do que pela paixão e o sexo é insatisfatório. Mostra superioridade e domina a relação. Se amadurecer pode ser realmente uma sócia cooperativa.

Na menopausa esta mulher encontra nas alterações fisiológicas as desculpas oficiais para evitar o sexo e tornar-se uma companheira-sócia ativa na luta pelas conquistas e pela família. Pode até fechar os olhos para o marido procurar outra para sexo, desde que a lealdade não seja afetada. O casamento pode ser afetuoso, mas de aparência, aquele casal que parece se entender muito bem socialmente, mas que não tem intimidade quando a sós. A menopausa pode ocupar esta mulher através dos cuidados com os sintomas e viver até uma crise no relacionamento concentrando suas queixas e irritação no marido.

 

A mulher ideal romântico:

Esta mulher seduz o homem, mas não pode se entregar, pois isso seria tornar-se objeto sexual. Para Lowen (p 266) “essa estrutura de personalidade denota um crescimento que foi além do nível da “irmã” e indica que a menina não reprimiu os sentimentos e sensações sexuais como aconteceu com o outro tipo”. É conhecida na psicanálise como histérica, porque o amor é idealizado e separado da intimidade no sexo, por isso alimenta amores platônicos ou mesmo amantes. Precisa seduzir outros homens, pois sua excitação está ligada a ser vista como objeto de adoração.

Então, na menopausa esta mulher também pode sentir intensos desconfortos com o sintoma devido sua história de repressão e também por seu caráter sedutor que precisa dos atributos físicos para atingir seu propósito de ser a mulher desejada. A depressão pode acontecer depois que se decepciona com seu “cavaleiro-herói” (p 269) e teme perder a beleza que a torna adorada. Esta mulher pode fazer lipoaspiração, cirurgia plástica, organizar sua vida em torno da academia e do salão de beleza, embora algumas possam ter manifestações mais sutis. Portanto, aqui a menopausa é sentida como perda.

 

A mulher mãe:

Esta menina procura ser valorizada pelo seu comportamento “amadurecido” para sua idade, ou seja, ser a boa garota, que ajuda os pais inclusive no cuidado com irmãos menores. Quando adulta essa mulher sente-se mais madura que o marido e adota-o como mais um filho, sempre disposta a ajudá-lo e até permitindo que ele tenha aventuras sexuais fora do casamento, desde que volte para ela. É a mulher dedicada aos filhos, sofredora, pouco vaidosa. A “mãe de todos”. Por isso encontra homens desamparados a quem tenha que ajudar. Oscila entre submeter-se e dominar o homem através de seu martírio.

A menopausa chega para essa mulher como uma resignação frustrada de sua natureza sexual uma vez que a sexualidade antes ligada com a fertilidade não existe mais e o sexo agora seria pelo prazer, o que não se permite. Como se atribui à menopausa a inibição do desejo sexual, a mulher-mãe aceitará prontamente essa premissa e aumentará sua dedicação ao lar, aos filhos e ao marido com uma qualidade maternal. Quanto ao corpo, ela pára de lutar para manter o peso e assume um corpo de matrona.

 

Uma grande questão é: Pode a mulher ter prazer e liberdade durante sua vida?

Podemos refletir que a menopausa pode dar um álibi à mulher para se libertar de uma sexualidade que não lhe foi total ou parcialmente satisfatória durante toda sua vida, sem prazer, a serviço da sociedade, do outro, de princípios questionáveis, que passam de geração em geração, dentro ou fora do casamento. Antes a permissão para o sexo era dada à mulher pelo casamento, o que não acontece mais, felizmente.  Nos dias atuais estamos mais livres destas amarras e talvez as mulheres do futuro consigam viver mais plenamente suas vidas. Como afirmam Betty Carter e Mônica MacGoldrick:

 

As mulheres, esperamos, começarão a redefinir suas vidas. Em vez de se sentirem ansiosas e deprimidas quando não estão felizes numa vida de abnegação e atenção com os outros, elas podem começar a avaliar as inconsistências sociais e as exigências irracionais que lhes são feitas. (19Pág 59).

 

No tocante ao climatério e seu aspecto relacional estas dinâmicas que acontecem nos relacionamentos devido ao tipo de caráter de cada cônjuge, contribuem para que este seja um período de mais encontro entre os parceiros ou que para que definitivamente se desencontrem. Observa-se na sociedade que muitos homens têm casos extraconjugais ou trocam de mulher, em torno desta época, quando ambos estão lidando com as mudanças próprias da idade. No caso dos homens acabam por escolher outra mulher bem mais jovem. Já entre as mulheres poucas se permitem fazer o mesmo.

Os papéis sexuais da mulher descritos por Lowen, mesmo com tantas transformações na cultura, ainda podem ser encontrados no universo feminino, talvez mais soltos menos rígidos e mais misturados, pois como sempre enfatizou Lowen, os tipos puros são raros, as pessoas têm traços de todos eles devido a serem parte do processo de amadurecimento.

Como cultura, temos melhorado em alguns aspectos e, ao que parece regredido em outros, porque da repressão da sexualidade passamos por uma liberação desmedida que não trouxe ainda o esperado prazer. “Pelo contrário, muitas pessoas queixam-se de sua incapacidade para funcionar sexualmente ou do temor de fracassarem no desempenho sexual” Lowen, (1983, p19).

Muitas mulheres ainda estão longe de poder viver a plenitude nesta idade porque os valores estão deturpados por uma mídia ditatorial que valoriza o jovem e um modelo de beleza criado, distante absolutamente da individualidade e da beleza natural. As mulheres são forçadas a se submeterem as transformações, que necessariamente terminarão em mais frustração, devido à distância que existe entre o que está no seu íntimo e os modelos externos.

As sensações que o corpo percebe são autenticas e anteriores às informações que a cultura dita, o corpo é o que nos conduz ao aprendizado dos sentimentos, sem ele estamos à mercê de escolhas impostas de fora, portanto no confronto com a realidade, em algum momento, o interno se mostrará oprimido, frustrado, deprimido, tentando voltar à sua verdadeira natureza. Portanto, quanto mais influenciável pela cultura e mais imaturo o caráter maiores serão os efeitos psicológicos na menopausa.

Nós mulheres que hoje estamos na menopausa fomos adolescentes nas décadas de 60 e 70, quando essas transformações aconteceram e recebemos ainda o impacto desse duplo padrão moral na nossa educação. A diferença é que com mais liberdade pudemos experimentar a sexualidade de uma forma diferente e hoje, como mulheres na menopausa, temos acesso à informação, a recursos da psicologia, da medicina, e tantos outros que contribuem para nossa qualidade de vida. Definitivamente, não precisamos nos tornar aquelas senhoras com ar de vovó de antigamente, podemos ser mulheres maduras bonitas, saudáveis, com auto-estima fortalecida, ter mais prazer de viver sem sucumbir à idéia que somente seremos felizes com um parceiro ao lado, mas podemos sim, desejar e viver uma relação amorosa de mais intimidade, sexualmente prazerosa e de encontro verdadeiro. Isso sempre e quando aprendermos a escutar nosso corpo, decodificar nossos sentimentos e escolhermos nossa forma de viver de acordo com nossos desejos mais profundos e verdadeiros. Pessoais mais que sociais, individuais mais que coletivos, internos mais que externos.

 

Referências:

LOWEN, A. Amor e Orgasmo. São Paulo. Summus Editorial. 1965.

LOWEN, A. Prazer. São Paulo. Summus Editorial. 1970

LOWEN, A. Narcisismo. São Paulo. Cultrix. 1983.

MCGOLDRICK, M.; CARTER, B. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar. Porto Alegre, Artes Médicas. 1989.

PITELLI, J. B. Modificações orgânicas e Psicológicas observáveis no Climatério. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. ISSN 0100-7203, 1997;8(2):238-53. Disponível em:
www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-72032007000500005&script=sci_arttext.

Acesso em 04/02/2009.

PIMENTA, F.; LEAL, I.; BRANCO, J. Menopausa, a experiência intrínseca de uma inevitabilidade humana: uma revisão da literatura. Lisboa, Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Universidade Nva de Lisboa. Disponível em:

www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v25n3/v25n3a11.pdf.  Acesso em 10.02.09.


"Eloá Andreassa"

 

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