O eu, o medo e os outros |
O eu sentiu medo dos outros, porque? Porque os outros (externos) produziram, registraram, transmitiram emoções frustrantes, desprazeirosas, que com o desenvolvimento, crescimento, experiência, a nossa mente-memória ancorou-definiu como medo. Nosso cérebro mais antigo, o reptiliano, que guarda nossa existência na vida, nossa sobrevivência registrou uma baixa ligação energética afetiva com o sustentador da vida-mãe originalmente, então, hoje no exercício da vida esta conexão original fraca nos induz a desenvolver relações de troca fracas, vazias em algum grau, desconectadas emocional e afetivamente.
Este artigo tem a intenção de refletir e informar às pessoas sobre uma base de conhecimento de onde provém a energia que nos imobiliza. Pensamos que ao conhecer o que profundamente limita nossas capacidades, o medo, possamos tomar contato com a realidade de uma forma diferente e consciente e que nossas percepções sobre esta realidade, agora acrescentadas desse conhecimento, possam limitar-nos em menor grau.
Sabemos que saber sobre nossas limitações não é suficiente para mudar energias ancoradas profundamente em nosso inconsciente e manifestadas em nosso corpo, mas o caminho do conhecimento nos poderá ajudar na identificação por comparação à compreender possibilidades novas de ampliar, de expandir nossa consciência para alcançar um grau de maturidade maior, que se transformará com o decorrer das experiências em genitalidade, ou seja, o que Reich colocava como o máximo de nossa evolução, que poderemos tentar atingir após muitos esforços.
Navarro nos diz que vivemos num mundo de relações, onde o contato sofre a interferência da vida sensorial:
Do ponto de vista neuropsicológico, deve-se dizer que cada estímulo sensorial determina uma percepção, que pode ser gratificante ou frustrante, e para a qual haverá uma resposta parassimpática ou simpática.
E, como conseqüência (1996, p. 27):
Em função da qualidade e da quantidade do estímulo a resposta que vem de dentro se exterioriza: é a emoção. A emoção que se exprime ou se reprime. Ela se traduz pela contração ou relaxamento muscular, e é responsável pelo comportamento.
Este biopsicosistema com retro-alimentação, o Eu, é percebido como evolução porque apesar de aparentemente os comportamentos relativos às experiências serem iguais, nunca o são, sempre teremos mudanças que em intensidade e freqüência gerarão estímulos e percepções diferentes. Assim nosso progresso está garantido perante a vida como um todo ou individualmente como um eu.
Segundo Volpi e Volpi “a maturação psico-emocional acompanha o movimento de pulsão da energia” definida na fórmula do orgasmo de Wilhielm Reich que é chamada de “Pulsão energética, onde tensão–carga-descarga e relaxamento” definem o “funcionamento da vida”, citada em Navarro, (1996, p26).
“Cada etapa do desenvolvimento psico-emocional se caracteriza por fenômenos específicos que trazem consigo na bagagem energética celular valores biofisiologicos emocionais afetivos e intelectuais que serão transmitidos para todas as demais células do corpo durante todo o processo de desenvolvimento” (Volpi e Volpi).
Ainda em Navarro (1996, p.26):
O ser vivo é o que é porque é dotado de uma carga energética que tem uma circulação pulsante e um metabolismo próprio (anabólico-catabólico) que tende ao equilíbrio ou homeostase que são perturbados por fatores externos.
A fórmula do orgasmo nos proverá permanentemente com o nível de energia necessária para realizar ou não todas as nossas ações – comportamentos - experiências de acordo ao nível de bloqueios ou couraças que nossa vida expressa determinando um destino em evolução.
Então, a vida nos coloca em marcha através de um eu manifesto em relação a um outro externo. Isto é evolução. Para muitos existe involução ou evolução negativa, acredito ser este um fenômeno de percepção. Num nível sócio cultural onde desenvolvemos nossos comportamentos-experimentos, sem dúvida trabalhamos dualmente como uma forma de definir entre extremos nossas ações, mas é justamente a repetição aparente que nos conduz a experiência da unidade da dualidade, considerando que os extremos são partes de uma mesma coisa. Assim vamos simplificando nossa percepção encontrando um mundo só e não mais um externo outro e um interno eu.
Assim eu estou na vida experimentando-a, criando meu próprio aprendizado ou experiência percebendo o outro através dos estímulos. A dificuldade começa nas percepções porque a estímulos e experiências iguais, teremos individualmente percepções e leituras diferentes.
Agora queremos conduzir toda esta fundamentação para a mais profunda e inconsciente energia que nos bloqueia: o medo.
Citamos Federico Navarro (1996, p.28) que nos apresenta o stress do medo nas várias etapas do desenvolvimento psico-afetivo determinando condições adversas na formação da psique, produzindo bloqueios energéticos na manifestação do eu.
1. O núcleo psicótico intra-uterino - provoca o medo de desintegrar-se, de desaparecer, de morrer;
2. O núcleo psicótico neonatal (borderline) - provoca o medo de não poder sobreviver;
3. Condição psiconeurótica (pós-natal) provoca o medo de não poder viver;
4. Condição neurótica (pós-púbere) - provoca o medo de viver uma vida insatisfatória, de não se realizar!
Esta energia do medo que se apresenta como um bloqueio energético é de caráter inconsciente provocando percepções desprazeirosas que se expressam em comportamentos do EU percebido pelos OUTROS como incapacidades em graus diferenciados.
Sobre esta energia queremos tecer alguns comentários:
O medo de desintegrar-se, morrer.
Ontem, no útero da mãe experimentamos estímulos e ancoramos percepções que nos fizeram sentir a importância de ser sustentados e depositamos todos nossos investimentos energéticos para nos ligar fortemente a este provedor de vida sustentadora. Mas este organismo era externo ao nosso EU e viveu suas próprias percepções mostrando seus próprios comportamentos nas relações dentre outra, com este sustentado EU. Podemos imaginar tantas coisas e com certeza não alcançaremos a ter uma boa percepção de tantas dificuldades vividas nesta relação onde freqüência e intensidade definirão a profundidade da lesão – bloqueio produzido ao EU.
Na formação do modelo afetivo a interpretação ficou afetada por uma deficiente integração sensorial produzindo no indivíduo comportamento melancólico e sentimento de vazio existencial com intensa dificuldade de contato. A baixa carga energética recebida desde o útero e ancorada no cérebro reptiliano que cuida de nossos instintos deixa uma fraca relação com os outros pela carência energética do modelo sustentador aprendido.
Em alguns casos o medo de desintegrar-se, morrer é percebido muito vividamente por alguns indivíduos que escolherão viver intensamente a vida religiosa onde inconscientemente foram buscar em diferentes idades da sua história amparo da continuidade da vida em outros aspectos não materiais ou corporais como é a espiritualidade. Alguns aparentemente conseguem durante um tempo permanecer conectados energeticamente na consciência, fé por um tempo, mas seu próprio corpo também no avançar em anos os remete ao confronto intra-uterino de estar desintegrando-se pela baixa conexão energética. A promessa de vida eterna ampara estes seres que tiveram percepções de desintegração intra-uterina e hoje lutam paradoxalmente entre a fé na vida eterna e a perda paulatina do corpo, assim como percebem DEUS o pai eterno como a mãe que o sustentava.
Hoje encontrarão sustentação na visão de um PAI/MÃE Criador com potência plena para preenchê-los, mas igual que a mãe uterina causa danos aparentes quando os faz sentir frustrações desta vez conscientes que lhes trazem dúvidas novamente, abalando sua certeza de sustentação.
A deficiente condição afetiva entre a criatura e seu criador produzirá na criatura com dificuldades de integração e interpretação sensorial a melancolia, ao não ser amado suficientemente criando vazio existencial. A insegurança no sustentador da vida, a mãe ontem e Deus criador hoje, confrontam-no permanentemente ao vazio existencial próprio desta desconexão. A separação sentida pela criatura do seu criador, percepção-experiência sentida originalmente no útero se repete na vida consciente, deixando-o vazio de sentido. A atual condição produz o medo de morrer ou desintegrar-se, sem ter certeza que, o produzido no fazer material será valorizado ou desvalorização já que o criador mãe não dava valor suficiente à sua criatura. Assim, a negação da condição humana corporal e a satisfação dos sentidos é discurso permanente para alcançar as graças da condição espiritual, como é dito em muitas religiões “é renunciando ao corpo e a satisfação dos sentidos que se alcança a vida eterna” e “pela oração, a meditação, a privação dos sentidos, o sacrifício pelos outros, se consegue estar mais perto de Deus”. Mensagens como estas deixam a criatura insegura da sua condição corporal atual e de seu agir materialmente. Onde fica a corporalidade e a necessária sensorialidade? O paradoxo está estabelecido, criando tensão novamente e desta vez frustrante por não saber estabelecer o valor da sua ação, deixando para os outros esta função que lhe dará um valor diferente, normalmente menor do que ele espera, deixando-o frustrado novamente e inseguro do valor ou importância para o outro, se desqualificando e não dando importância para si mesmo e suas ações. O vazio existencial esta assegurado, nada do que o eu faz tem importância, então, para que existir?
Este medo de desintegrar-se é também vivido por aqueles que buscam amparo em estruturas de sustentação de grande tamanho, como multinacionais, empresas do estado ou grandes conglomerados onde poderão ser sustentados sem o contato direto com uma identidade sustentadora, vivendo sem relação afetiva, sem cobranças de resultados diretos, portanto, aproveitando este vazio para fazer do seu jeito. As dificuldades começam justamente nos relacionamentos interpessoais próximos, onde, normalmente, chefias e lideranças são percebidas como inimigos por causarem frustrações. A dependência de sistemas maiores é indispensável para poder se sentir sustentados, mas as dificuldades ou tensões surgirão quando a baixa energia que estas pessoas possuem definirá comportamentos de desinteresse, falta de contato, valorização, depreciação, estresse. Estas características denotam uma tendência que o mercado recebe cada vez com maior freqüência, se transformando numa reclamação permanente, tanto das empresas, quanto dos funcionários.
Pensamos que a forma de unificar a dualidade GRATIFICAÇÃO/FRUSTRAÇÃO está em encontrar valor para esta vida reconhecendo a realidade material-corporal no nível intelectual, unificando-se no sentir-emoção da amorosidade pela sua própria obra, seu próprio filho, tão intensamente quanto possível, rompendo o ciclo negativo de desvalorização dos outros e de si mesmo. A existência existe para mim, desde mim para os outros, em mim eu unifico todo o existir. E assim, o eu é preenchido pela compreensão de si mesmo e de sua obra, sem necessidade do outro como dependência para seu existir.
Referências:
NAVARRO, F. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996
NAVARRO, F. A Somatopsicodinâmica. São Paulo: Summus, 1995
VOLPI, José Henrique; Volpi, Sandra Mara. Etapas do desenvolvimento emocional. Curitiba: Centro REichiano, 2006. Disponível em: www.centro reichiano.com.br/artigos.htm. Acesso em: 20/07/2007.
"Hugo César Gaete Verdugo"